Notas e manifestos
Nesta página estão reunidos todos meus manifestos e notas públicas que sintetizam minhas lutas e protestos formais e documentados contra formas difusas e diversas de violência e exclusão sofridos durante minha passagem e permanência na academia e refletem, mais especificamente, uma parte negativa da minha experiência como pesquisador da Universidade de São Paulo. São também um registro importante de ações continuamente silenciadas, apagadas e marginalizadas que costumam ficar relegadas a uma zona obscura da formação de um eu acadêmico pretensamente neutro, e expõem um processo de contínuas lutas por direitos.
O conteúdo desta página inclui notas de repúdio, manifestos públicos e outros registros importantes dessas lutas, e são minha forma de expressar aquilo que é continuamente censurado (muitas vezes de forma violenta) e que repousa muito além do currículo Lattes, das publicações acadêmicas ou do que meu eu acadêmico retorna e devolve para a sociedade.
Minha formação humanística me obriga a notar o fato de que muitos desses documentos, impressos por mim e divulgados pela Universidade, pela cidade de São Paulo e em outros locais físicos (além das redes sociais), geralmente rasurados ou removidos por mãos anônimas, são para mim a lição última e um lembrete contínuo de que a censura é a retribuição daqueles que ousam falar dos problemas, desafios, crises e injustiças do seu tempo com autêntica severidade.
Allan Moraes
São Paulo, 28 de agosto de 2026.
São Paulo, 28 de agosto de 2026.
MANIFESTO E NOTA PÚBLICA DE REPÚDIO:
EXCLUSÃO ESTRUTURAL, CRIMINALIZAÇÃO E VIOLÊNCIA CONTRA DISCENTES NA USP E FEUSP
EXCLUSÃO ESTRUTURAL, CRIMINALIZAÇÃO E VIOLÊNCIA CONTRA DISCENTES NA USP E FEUSP
Vem-se a público manifestar veemente REPÚDIO aos critérios excludentes mantidos pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) no edital da Escola de Aplicação (EA), bem como à cultura de intimidação, desqualificação e violência direcionada a estudantes de graduação e pós-graduação que denunciam tais arbitrariedades.
1. O MODELO EXCLUDENTE E O CÍRCULO VICIOSO DA IRREPRESENTATIVIDADE
O edital da EA-FEUSP restringe categorias internas a docentes e servidores, empurrando os estudantes da USP à dita “categoria externa”. Essa segregação alimenta um perverso círculo vicioso institucional: ao impedir o ingresso de dependentes de estudantes, inviabiliza-se a formação de uma representação de pais discentes na comunidade escolar. Sem voz ou assento nos órgãos colegiados da escola, a categoria discente fica sistematicamente bloqueada de propor alterações regimentais internas, perpetuando a própria exclusão de forma autofágica.
2. A BUROCRACIA INERTE E OS SOFISTAS DO ESTADO
Anos de atuação na APEF da Creche Central e comissões acadêmicas resultaram em contínuas manobras de dissuasão e promessas descumpridas. Para embasar tal inércia, instâncias administrativas recorrem a contorcionismos conceituais, atuando como verdadeiros sofistas do Estado ao evocar um pretenso princípio de ‘isonomia’ — uma grotesca perversão conceitual da democracia radical ateniense usada para segregar os filhos de pesquisadores que sustentam a própria produção científica da universidade, além de embasamentos jurídicos por parte do Ministério Público de São Paulo, para decisão em contrário em processo (mandado de segurança) movido contra a USP, que se escudam em superficiais “lições” aristotélicas de “igualdade entre iguais” para justificar privilégios corporativistas. Aristóteles, cabe notar, ideólogo da escravidão antiga e da misoginia estrutural por excelência (para Aristóteles, mulheres, escravizados e crianças são uma categoria inferior e distinta do homem senhor de posses), sempre teve, desde a Antiguidade, quase que um poder hipnotizante de fazer com que seus seguidores mais fanáticos e acríticos tomassem suas palavras (mesmo as mais absurdas) como uma verdade inspirada pelos deuses. Cabe questionar se suas “lições” e verdades são tomadas por seus seguidores de hoje em paridade com estas outras palavras suas: “ἔτι δὲ τὸ ἄρσεν πρὸς τὸ θῆλυ φύσει τὸ μὲν κρεῖττον τὸ δὲ χεῖρον, καὶ τὸ μὲν ἄρχον τὸ δ᾽ ἀρχόμενον. τὸν αὐτὸν δὲ τρόπον ἀναγκαῖον εἶναι καὶ ἐπὶ πάντων ἀνθρώπων” (“No que diz respeito aos sexos, o masculino é por natureza superior, e a fêmea, inferior; aquele, governante, e esta, subordinada. Este princípio é, por necessidade, aplicável também à humanidade como um todo” — Aristóteles, Política, I.1254b).
3. DA DIFAMAÇÃO INTERPESSOAL À INVERSÃO DE PAPÉIS NAS INSTÂNCIAS OFICIAIS E A ESCALADA DA VIOLÊNCIA
A recusa discente em aceitar a inércia gerou severas retaliações. No plano comunitário, registraram-se condutas difamatórias em eventos da Creche Central — com a disseminação intencional de falsidades para indispor pais discentes perante o corpo docente —, denúncias que esbarram na desidratação correcional dos canais de acolhimento da USP. No plano institucional, a gravidade atinge seu ápice quando a própria gestão da Escola, em sessão pública e transmitida de órgão colegiado, recorre à espúria narrativa de que a instituição estaria “sofrendo ataques” ao mencionar ações legítimas promovidas por pais que buscam direitos para seus filhos. Classificar, em canal público, a via pacífica do socorro aos direitos parentais e sociais como “ataque” e, em reunião privada com pais discentes, sugerir que seria “difícil” mediar, diante de possíveis mudanças regimentais, retaliações e manifestações por parte da comunidade interna, já pertencente ao status quo da Escola, escancara a perversão de uma burocracia que vitimiza a corporação encastelada para criminalizar a comunidade discente. No plano interpessoal, a exclusão desdobrou-se em episódios recentes de violência ostensiva, perseguição (stalking), ameaças e linchamento e lesões corporais, danos a bens e invasão domiciliar contra nossa família apenas dois dias após a publicação da primeira versão desta Nota de Repúdio. Tais agressões não são episódios isolados: ocorrem no contexto de exclusão promovidos pela própria USP, encontrando eco e complacência nas redes de sociabilidade e amizade íntima que o principal agressor mantém com docentes da USP. Revela-se aí a assimetria ética entre o privilégio corporativo encastelado e a vulnerabilidade do discente.
4. COMPROMISSO INAFASTÁVEL POR JUSTIÇA INSTITUCIONAL
Este cenário, que alia exclusão regimental, silenciamento representativo, difamação pública e violência espúria, revela a urgência de desmontar o elitismo corporativo na USP. Exige-se a apuração das infrações éticas e a imediata inclusão dos dependentes de discentes em categoria equânime no edital da Escola de Aplicação da FEUSP.
Pelo fim do corporativismo e pelo direito inalienável à representação e à permanência parental na USP!
Allan Moraes | Bacharel em Letras/Grego Clássico e mestre em Letras Clássicas (FFLCH/USP), doutorando (FEUSP).
Amanda Carvalho | Bacharel em Letras/Grego Clássico e mestre em Letras Clássicas (FFLCH/USP), doutoranda (FEUSP).
São Paulo, 28 de agosto de 2026 | atualização em 3 de agosto de 2026.